domingo, fevereiro 25, 2007
Certo livro de antropologia deixava em ressalva umas observâncias concernentes à obtenção da felicidade como matéria além, ao invés de aquém. Parece um pouco confuso, ou mesmo prolixo, mas o raciocínio é razoável: sendo que se trata, nosso conteúdo jocoso, de fluido instável, é importante que o consideremos sempre como conteúdo futuramente alcançável e não em estado presente. Em outras palavras: se a felicidade é hodierna, então ela está mais longe do que nunca...
sábado, fevereiro 24, 2007
Hipermétrope
Divido agora a minha vida com um ser dicotômico: não sei se meus olhos enxergam bem demais depois que corrigi da vista o problema de hipermetropia...
segunda-feira, fevereiro 19, 2007
Para amar algúem
para amar alguém é preciso ter o pulso forte,
ter a veia túrgida e o sangue quente...
é também preciso sorte e um fiel confidente.
para amarmos uns aos outros
é preciso um conjunto de leis;
é preciso justiça e punição divina,
é preciso um deus ameno
que nos leia uma tábua de mandamentos.
para amar alguém é preciso coragem,
é preciso ter peito e assumir que se ama,
é preciso engolir a seco
e dar um nó na garganta.
é preciso queimar a vaidade em chama acesa
e libertar o egoísmo de nossas presas;
para amar o mundo é preciso amar alguém...
ter a veia túrgida e o sangue quente...
é também preciso sorte e um fiel confidente.
para amarmos uns aos outros
é preciso um conjunto de leis;
é preciso justiça e punição divina,
é preciso um deus ameno
que nos leia uma tábua de mandamentos.
para amar alguém é preciso coragem,
é preciso ter peito e assumir que se ama,
é preciso engolir a seco
e dar um nó na garganta.
é preciso queimar a vaidade em chama acesa
e libertar o egoísmo de nossas presas;
para amar o mundo é preciso amar alguém...
domingo, fevereiro 18, 2007
Resoluta
Sorveu o último gole em café tépido. A mesa era fria: de concreto! E trocava calor, como diriam os físicos, com a xícara depositada sobre ela. Seus olhos úmidos quase não choravam: houvera enfim percebido que a ausência não mais poderia tocá-la. Era uma estranha pra si mesma. Não reconhecera seus dotes, suas mazelas, seus escândalos, sua léria tão bem formalizada, digna de uma esmerada inteligência...mas eis que sua capacidade de discernimento já não a poderia suster. Cerrara os olhos, pusera pra fora a cuspe as memórias que teimavam em remanescer. E finalmente pagaria a conta...
domingo, fevereiro 11, 2007
Abrindo o céu
o sol está escondido. atrás desse manto encoberto de nuvens pálidas e brancas e cinzas que, em matizes monocromáticas, engolem o fundo azul-claro do firmamento, impedindo o despontar do astro-rei. mas há de vir um vento a noroeste, destes que se deslocam das bordas do infinito, que se dispõe em linha reta; destes que atraem os peixes em correntezas marítimas, que trazem bons augúrios às famílias de pescadores: ele sim dispersará as nuvens em grandes magotes dissipados, e deixará uma frincha de luz rasgar a boca do céu. Abrir-se-á então, uma nesga esperançosa, na qual caberão os ínfimos segundos de uma reza ao todo-poderoso.
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
Sobre um menino morto
Consigo compreender a revolta de pessoas ao argumentarem contra a marginalização da cidade do Rio de Janeiro, mormente o fato de que as punições para os delinqüentes não passam de atividades lúdicas e insensatas no esquema penitenciário do Brasil, consigo atinar a dor sentida por uma mãe que perde seu filho de forma brutal e atroz...o que não consigo compreender são as manifestações de solidariedade incongruentes que surgem no jornal hodierno. Nesta hora o brasileiro esquece da cerveja, do futebol, do carnaval que lentamente se aproxima e mostra não ter papas na língua, expondo seus desejos puramente fascistas. Amanhã esquecem de tudo: afinal, é carnaval e o dia precisa nascer feliz! Tenho vontade sincera de tomar os olhos de cada um e esticá-los bem fundo as pálpebras: vejam o mundo que criamos! É nosso! Não conseguem concluir que fazemos parte do jogo sujo que se instalou na humanidade? Leio milhares de depoimentos na coluna de leitores do Jornal e um bom número deles aponta para o valor da vida. Estão abismados: como a vida pode valer tão pouco? Eu respondo que nós mesmos temos, para com a vida, um comportamento não harmônico. Reclamamos que o viver humano não vale dinheiro que se pague, mas gastamos a nossa vida inteira atrás de dinheiro para ostentação, que chamamos de conforto. A televisão mostra casos de pessoas abastadas que vivem conflitos familiares no Leblon, onde belas mulheres e homens desfilam roupas de grife e ganham rios de dinheiro pra enxertar no povo esta vontade de ser alguém, de possuir...não tenho o intuito de proteger a marginalização. Sinto-me ameaçado. Não gosto de viver no Rio de Janeiro. Estou farto de atrocidades! Mas não posso julgar a pele dos injustiçados de forma fascista! É simples culpar aquele que nada tem...é fácil, muito fácil falar quando somos providos de condições que nos fazem exceler dos demais. É fácil julgar um indefeso na fila do SUS...difícil é compreender que alimentamos dia a dia o sentimento particularmente egóista do ser humano de, a qualquer custo, aparecer...